Por que é importante entender o que é a cultura do estupro?
Texto: Caio Buni - Publicado em Jornal Sintonia n09/2016
Os estupros são mais frequentes e próximos do que se imagina, de acordo com o Anuário do Fórum Brasileiro de Segurança Pública 50 mil pessoas são estupradas todos os anos no país e estima-se que esse número pode ser dez vezes maior. A violência sexual é um dos crimes mais comuns e mais silenciados, segundo a Crown Prosecution Service (CPS), agência de investigação criminal inglesa, 75% a 95% dos crimes de estupro não são notificados aos orgãos de segurança, estatistica que reflete a realidade global.
Argumentos de que a mulher é culpada pelo estupro pela escolha da roupa, local ou horário frequentado são comuns não só nas conversas cotidianas mas tambem no atendimento do serviço de segurança pública. Por essas e outras foram criadas as delegacias especializadas em crimes contra mulheres, mas elas ainda estão disponíveis em apenas 10% dos municípios brasileiros.
Além do fator da humilhação pública, muitas vezes mulheres são inibidas a denunciar casos de violência sexual para evitar a criminalização legal e social do agressor, isso porque a cada quatro casos, em três o estuprador é um parente ou conhecido da vítima.
A cultura do estupro produz mecanismos sociais que fazem com que a mulher seja mais criminalizada por ter tido seu corpo violado, do que o agressor pela violência física e psicológica causada. O menosprezo social e institucional pela mulher estuprada leva a interiorização dos traumas e a recusa a contar sobre os casos de violência sexual sofridos para profissionais de segurança e mesmo a amigos ou parentes. Ainda raramente quando os casos são registrados, como resultado reina a impunidade.
Lembre-se: o culpado pelo estupro é o estuprador, não a vítima.
CULTURA DO ESTUPRO
A cultura do estupro não se resume ao ato criminoso, essa é a consumação literal de um amplo conjunto de regras sociais que submetem as mulheres como objeto sexual do desejo masculino.
Se tornar uma “moça de família”, apta às tarefas domésticas, recatada, que não levante a voz a um homem, bela e virgem, foi o objetivo da educação feminina por muito tempo.
Mas os tempos mudaram, há mais de um século as mulheres vem ganhando voz na sociedade, poder econômico e político, porém a cultura não se transforma na mesma velocidade.
Hoje as mulheres têm o direito fundamental da igualdade, mas o conflito se dá na resistência da tradição que passa de geração a geração às transformações sociais da era moderna.
Muitos meninos continuam sendo ensinados à masculinidade arcaica, ouvindo que serão garanhões desde pequenos, depois da infância começam a ver as meninas como objetos e não como pessoas, essa “educação” machista faz com que eles comecem a assediar as mulheres desde o ambiente escolar e quando crescem são incapazes de se portar em relação às diversas demandas que as mulheres desejam expressar. Depois viverão a adolescencia e a idade adulta se sentindo na tarefa do reprodutor equino de copular com toas as fêmeas que desejar sem se importar com o que elas pensam ou sentem.
A tara desvairada desse homem bárbaro aparece nas encoxadas no ônibus, nas passadas de mão rápidas, nos agarrões e puxões de cabelo, nos beijos forçados, no estupro. Assovios, supostos elogios despretensiosos e puladas de cerca também não são inocentes nessa história.
O assédio sexual e o estupro certamente não são problemas de hoje, mas como antigamente a mulher não tinha voz na sociedade e mal tinha direitos legais, não havia tanto conflito.